Abraços!







"A Arte é a confissão de que a vida não basta" "A Arte do cinema consiste em aproximar-se da verdade dos homens" "Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação" Godard Fellini Truffaut Bergman Kieslowski Hitchcock Lars Von Trier Joaquim Pedro de Andrade Luis Fernando Carvalho Almodóvar Jean Renoir Alain Resnais Buñuel Tarkovsky Glauber Kubrick são tudo e mais um pouco, mas não deixam de ser apenas uma parte.







“Amar e se comunicar se tornou quase impossível para os homens. Só a fraternidade poderá uni-los”
A terceira e última parte da Trilogia das Cores é a minha preferida (mas confesso que foi muito difícil escolher). É um filme tão complexo que é difícil classificá-lo. Ao meu ver, é uma película sobre amor, fraternidade, comunicação e compaixão.
Valentine é uma mulher doce, com um ar quase infantil. Seu namorado está fora do país a trabalho, portanto a relação dos dois é restringida a alguns minutos de telefone por dia. A consumação física não pode ser feita. Isso nos mostra a frieza das relações e como concordamos passivamente em levá-las adiante, mesmo que nos incomodem.
O conflito do filme começa quando a personagem principal atropela a cadela de um juiz aposentado. Quando esta é devolvida ao dono, se inicia uma relação inconstante que prenderá nossa curiosidade até o fim.
Valentine descobre que o juiz escuta as conversas telefônicas de seus vizinhos e fica totalmente perplexa e indignada. A princípio, sente asco, mas isso era o que ela precisava para se sentir atraída pelo tal homem. A relação de amizade que se estabelece vem com uma atração quase sexual e a desculpa de que Valentine apenas queria que o juiz parasse de espionar seus vizinhos. A personagem principal é uma pessoa muito boa, ética e correta, mas impressão que fica é que ela não faz bem aos outros por achar isso certo, e sim para ficar bem consigo mesma, para que não se sinta culpada por ter feito algo que não deveria. Isso nos revela sua personalidade: uma mulher boa, mas egocêntrica, que pensa nos outros apenas para fazer bem a si mesma e para ficar em paz com sua consciência.
Neste filme Kislowski constrói sua narrativa com montagens paralelas. Uma estória secundária (aparentemente independente da estória principal do filme) é contada sem estabelecer relações com a estória de Valentine. Num determinado ponto do filme, o juiz conta a sua vida, e percebemos que essa mesma vida vinha sendo contada na estória paralela: um jovem juiz recém-formado (Auguste) mantém uma relação sem amor com uma mulher. Uma noite ele descobre que ela o havia traído. Pouco tempo depois ela morre.
Percebemos que Auguste é uma espécie de projeção do juiz na atualidade, e que sua vida está acontecendo novamente. Auguste é o passado do juiz e este é o possível futuro daquele. Quando Valentine pergunta ao juiz o motivo dele não ter amado de novo, ele responde: “pois eu não conheci você”.
Existem algumas cenas em comum entre os três filmes (vide “A Liberdade é Azul”). Na seqüência da senhora tentando colocar uma garrafa de vidro no lixo, Valentine é a única das três personagens principais que tem uma atitude ativa e ajuda a velha mulher. Isso remete novamente ao caráter da personagem, que é de boa índole, porém também visa inconscientemente seu próprio benefício. É claro, durante o filme, que Valentine está num estado de violência interior. Isso fica evidenciado na força de seus movimentos ao fazer balé e no furor com que bebe água. Ela tem a necessidade de se pôr à prova e de se forçar até seus limites.
A fotografia da película é linda e é determinante para a impressão que o mestre Kieslowski deseja causar. A trilha sonora, no filme, é atribuída a Van den Budenmayer (um compositor que aparece em diversos filmes da carreira de Krzysztof) e não é menos importante. Chamo a atenção para um detalhe que me fascinou (já que o diretor era tão perfeccionista com relação aos detalhes): vemos uma mulher jogando boliche, a câmera se desloca lateralmente para uma mesa onde antes havia se sentado um casal. Em cima da mesa está uma caixa amassada de Marlboro, um cinzeiro com um cigarro ainda em brasa e um copo quebrado. Percebemos então que o casal da estória paralela rompeu o relacionamento.
No fim do filme, Valentine decide viajar para encontrar seu namorado. Mas ela tem medo de avião e, por uma sugestão do próprio juiz, decide viajar de barca (mostrando que somos nós que decidimos nosso futuro). Pouco depois, o juiz assiste na televisão que a tal barca sofre um acidente, onde restaram apenas sete sobreviventes (é aqui que a surpresa é mais forte): um inglês desconhecido, Julie (do filme “A Liberdade é Azul), Olivier (também do “Azul”), Karol Karol (do “A Igualdade é Branca), Dominique (também do “Branco”), Valentine e Auguste (que também estava a bordo da barca). Neste momento, liberdade, igualdade e fraternidade se encontram, mostrando a complexa teia de interdependência a que elas estão inseridas, e que nos momentos críticos da nossa vida, são elas que prevalecem. O diretor nos coloca a bela imagem de pessoas de nacionalidades diferentes unidas por uma tragédia. Por causa do acidente, Valentine conhece Auguste e, por isso, seu futuro poderá ser diferente do presente do juiz.
O “Vermelho” foi para Cannes em 1994, mas perdeu injustamente para Pulp Fiction (até Tarantino concorda comigo). Logo depois, Kieslowski anunciou publicamente que não iria voltar a filmar, pois tinha conseguido com o filme, atingir uma porcentagem do que tinha idealizado que nunca havia conseguido antes, e que achava difícil conseguir de novo. O diretor morreu logo depois, em 1996. Mas morreu sabendo que tinha feito uma obra colossal, que seria lembrada e revista por muitos anos. Filmes maravilhosos que fazem uma profunda reflexão sobre valores e sobre a condição humana.
“Enquanto houver a incompreensão, homens e mulheres viverão a desigualdade”
Na segunda parte da Trilogia das Cores, vemos a personagem principal (Karol Karol) cheia de dúvidas, sentindo-se deslocada e desajeitada.
Karol Karol é marido de Dominique, uma mulher rancorosa e perigosa que decide se separar após o início da impotência sexual do esposo. Seu “predatismo” é exemplificado nos menores gestos, como a forma dela gesticular o “tchau”. A impotência sexual do homem pode ser entendida como sua impotência em relação ao mundo em que vivia naquele momento.
Karol é polonês e, mesmo morando na França, não sabe falar francês. Por conta disso, na sua auditoria de divórcio, ele é enormemente prejudicado, sendo impedido de falar. Essa auditoria é a mesmo que Julie, no filme “A Liberdade é Azul”, entra por engano. Aqui, Kieslowski nos remete novamente ao acaso.
O Juiz acaba aprovando o divórcio e Karol decide se vingar. Durante todo o filme, a personagem principal é exposta aos mais diversos tipos de humilhação, que evidenciam vários tipos de desigualdades: econômica, étnica, política, social, dentre outras. Por isso essa película é a mais política da trilogia.
“O homens não são, nem querem se iguais”
K. Kieslowski
O diretor brinca todo o tempo com elipses temporais. Como uma cena de Dominique abrindo uma porta, que é mostrada duas vezes, porém em tempos cronológicos diferentes. Nas duas vezes em que a cena descrita acontece, Karol está brincando com uma moeda de dois francos, o que nos faz estabelecer ligações quase inconscientes e refletir sobre a relação cronológica do filme com sua estória.
Parênteses sobre uma coisa que não se encaixou no texto: Karol rouba um busto de uma vitrine que sempre nos remete à Dominique.
No fim do filme, o plano de vingança de Karol funciona: ele transa com Dominique (numa linda cena em que o orgasmo é simbolizado pelo branco, que é a junção de todas as cores. Isso nos faz pensar que esse é um momento em comum, no qual somos todos iguais) e no dia seguinte ela vai para a prisão.
Karol a visita na cadeia numa cena bela e forte em que Dominique diz, por gestos, que ainda o ama. No fim das contas, ambos terminam igualmente: A mulher presa literalmente e seu marido preso no esquecimento da morte.
"O homem sempre viveu o mito do amor. Para muitos, amar significa renunciar à liberdade"
A primeira parte da Trilogia das Cores já começa nos dando um susto: um acidente de carro, no qual o marido e a filha da protagonista (Julie, fantásticamente interpretada pela maravilhosa Juliette Binoche) morrem. Ela acorda no hospital, onde fica sabendo do acontecido. A partir daí, Julie tenta se desvincular de tudo que lhe lembre o passado. Põe a casa à venda, transfere seu dinheiro para uma conta desconhecida e se desfaz de suas fotos antigas, deixando restar somente um lustre azul que, outrora, ficara dependurado no quarto (também azul) de sua filha. O marido de Julie era um compositor muito famoso. Ele estava compondo o Concerto Pela Unificação da Europa e, até mesmo suas partituras, ela decide destruir.
Aos poucos, Julie se fecha em seu mundo. Nada mais lhe interessa, apenas as coisas corriqueiras da vida, que não lhe apresentam risco de envolvimento afetivo. Isso é perfeitamente exemplificado pela belíssima fotografia, quase obcecada por closes, mostrando o mundo extremamente minimalista da personagem, restringido somente ao seu entorno.
A protagonista tem o costume de ir a um “café” perto da sua casa, onde coincidentemente, um flautista toca todos os dias uma música muito parecida com o Concerto Pela Unificação da Europa. O diretor do filme tinha como objetivo nessa trilogia, mostrar o que une os seres humanos, e isso é exemplificado nos detalhes mais irrelevantes do dia-a-dia, como o fato de duas pessoas, em diferentes lugares, terem a mesma idéia de uma mesma composição musical. Quando Julie conversa com o flautista, este diz enigmaticamente que “é preciso se agarrar a algo”.
Olivier, um velho amigo do falecido marido de Julie, começa a procurá-la obsessivamente, dizendo estar apaixonado. Aos poucos ela começa a ceder a esse homem de quem conhece pouco, mas que a ama muito. Juntos, eles decidem dar continuidade ao trabalho de Patrice (o falecido marido), terminando o Concerto Pela Unificação da Europa.
Julie descobre que a música sempre esteve dentro dela, e que as coisas pelas quais ela passou, não iriam sair de sua memória. A liberdade totalmente idealizada que buscava, é inatingível.
Um ponto muito marcante na obra de Kzrysztof Kieslowski é a questão da dualidade e do acaso. Os três temas (liberdade, igualdade é fraternidade) circulam pelos três filmes sem regras de interpretação. Entre os longas há cenas em comum, como a cena da senhora que tenta colocar uma garrafa de vidro num container alto. Em cada filme, as protagonistas reagem de formas diferentes. Nesse primeiro, Julie apenas observa a senhora.
Outro ponto marcante é que muitas coisas importantes para o entendimento da obra ficam implícitas em cenas metafóricas, cheias de significados. É o caso da cena em que uma prostituta vai à casa de Julie e lhe diz que se identifica muito com o lustre azul, pois também tivera um, quando era pequena. Se não fosse a aproximação gradual da prostituta com a protagonista, esta nunca descobriria que seu marido tivera uma amante. Amante para quem será dada a casa em que Julie morara com Patrice.
A fotografia opta pela tendência à cor azul e cria quadros memoráveis. A trilha sonora é uma das mais lindas da história do cinema e é essencial para a compreensão sensível da obra. Um filme realmente grandioso.
Na linda cena final, vemos uma seqüência que mostra o destino das personagens do filme: Julie transando com Olivier em uma espécie de redoma de vidro. Eles estão ali, são humanos, têm defeitos, qualidades e entendem que sofrer faz parte da condição humana. Vemos a única testemunha do acidente trágico do início do filme, que ficou para si com um colar achado perto do carro. Vemos a morte da mãe de Julie, que estava perturbada psicologicamente e morando num asilo. Vemos a prostituta esperando sua hora de entrar no palco do bordel. Vemos a amante de Patrice fazendo um ultra-som, pois está grávida dele. Finalmente, a cena volta para a protagonista e vemos, pelos olhos de Olivier, ela completamente nua, de costas e reflexiva (livre dos fantasmas do passado, mas entendendo que o que viveu nunca irá deixá-la). Há um corte para o rosto de Julie. Uma lágrima escorre-lhe pelo rosto (é uma das raras vezes que chora). Aos poucos o azul toma conta da tela. Os créditos sobem.
Nos anos 50, a Itália saía derrotada da Segunda Guerra Mundial, e vivia uma época de intensa pobreza e desemprego, logo, é natural que vários de seus cineastas se interessassem em retratar a situação vivenciada. O cinema passou a caminhar junto com a psicologia, e a ser um modo de colocar em questão a condição humana em meio àquela sociedade em crise. Os diretores resolveram se posicionar criticamente perante a realidade, principalmente quanto aos seus problemas sociais. Surgia o Neo-Realismo Italiano, um importantíssimo movimento do cinema, que ia contra os padrões tradicionais até então, importados dos Estados Unidos. A fotografia mudara, a temática e, principalmente, a relação com o público. Agora eram usados atores não-profissionais e muitas tomadas eram feitas ao ar livre, já que outra característica importante é a que as produções tinham baixo orçamento.
A exemplo, o filme “Ladrões de Bicicletas”, de Vittorio De Sica, que aborda o drama do desemprego. Conta a triste história de um homem que dependia estritamente de sua bicicleta para sobreviver. Um dia ela é roubada e ele começa uma maratona para consegui-la de volta. Todos os acontecimentos nos encaminham para um final sensível e sugestivo, que abre à discussão e à conscientização dos problemas sociais.
O Neo-Realismo Italiano, apesar de ter durado pouco tempo, foi importante o suficiente para influenciar a cinematografia do mundo inteiro, já que cinemas com as mesmas características começaram a surgir em outros países.